"O reino do lenga-lenga"
por Digo Decalque*
O debate entre os candidatos à prefeito ontem [20 de agosto] na PUC foi um pouco, digamos, broxante. Acho que talvez eu estava esperando um pouco mais pro início de campanha dessa eleição que promete ser, no mínimo, histórica. Num auditório lotado com estudantes se abarrotando até nos corredores, os oito candidatos apresentaram poucas propostas diretas e preferiram conter os ataques aos adversários do que provocar polêmicas
maiores.
Quer dizer, oito candidatos não. O Márcio Lacerda (PSB) não foi e acabou mandando o coordenador de campanha Jorge Nahas (PT) em seu lugar. Sua ausência é até certo ponto compreensível já que a repercussão desse debate nem é tão grande assim, mas não consegui direito entender porque escolher um substituto tão sem jeito pra coisa. Nahas não estava nem um pouco inspirado, titubeava nas respostas, não soube responder direito o que fazer com o transporte e retrucava para qualquer pergunta que seria tudo muito difícil e caro. Pelo menos foi direto na questão do meio-passe estudantil – que, aliás, foi tema recorrente nas perguntas - e afirmou sob vaias da platéia que seria possível somente para estudantes de baixa renda e do ensino médio.
Gustavo Valadares (DEM) talvez foi o candidato que se saiu melhor nessa noite, e mostrou ter um bom discurso mesmo defendendo em frente a uma enorme platéia de jovens esquerdistas o compromisso do seu partido pela política do estado mínimo. Foi enfático quando questionado sobre educação e se declarou contra a Escola Plural e a favor da universalização do ensino integral na rede municipal. Mas pecou pelo excesso ao exagerar o papel do prefeito na segurança pública, visto os entraves constitucionais que não dependem dele para serem resolvidos.
O candidato do PMDB, Léo Quintão, também mostrou que, apesar do topete e da pinta de engomadinho, é carismático e intrépido quando necessário. De propostas estruturais falou pouco, mas pelo menos nos proporcionou o maior barraco do debate quando perdeu as estribeiras com o excesso de vaias que recebia da platéia e esbravejou em pé pedindo respeito à democracia. Seus brados coléricos eram o exato oposto da voz serena e pausada de Sérgio Miranda (PDT) que, parecendo não estar muito inspirado, preferiu ficar repetindo as perguntas, reiterando os problemas e dando respostas vagas ao invés de apresentar soluções concretas.
Quem também não falou muita coisa de interessante foi Jô Moraes (PCdoB). No meio de intermináveis rodeios e frases genéricas do tipo "vou melhorar a saúde, a educação e blábláblá", pelo menos foi direta ao afirmar que irá defender a utilização de recursos do Fundo Municipal de Transporte para subsidiar o meio passe estudantil, o que relembra a política do governo Lula de investir no social mas sem assustar os grandes empresários. A única menção a Márcio Lacerda – seu adversário a ser batido - foi feita nas suas considerações finais, quando citou a diferença de dinheiro e tempo de propaganda eleitoral entre as campanhas. "Minha TV são vocês", clamou em alta voz.
Concluindo, parece que a presença de todos os candidatos e não só dos mais importantes atrapalhou uma boa discussão de idéias. É óbvio que ter todo mundo na mesma mesa é legal e democrático, mas isso acaba impedindo um aprofundamento maior nas ideologias e propostas de quem realmente vai competir pelo troninho do Pimentel. O modo de organização do debate também prejudicou essa falta de direcionamento, e as perguntas meio nada a ver e bastante genéricas dos alunos e a falta de ousadia dos jornalistas fizeram com que alguns temas importantes acabassem solenemente ignorados, como a questão da aliança PT/PSDB e da relação entre cada candidato e a Câmara Municipal.
Por isso, quem quer ver um debate de verdade ainda vai ter que esperar
um pouco mais. E esperemos.
*Digo Decalque, nome-fanstasia de Rodrigo Burgarelli, é estudante de Comunicação Social pela UFMG, e colaborou gentilmente para este blog. Já que estes blogueiros não puderam aparecer no debate, Digo apareceu lá e nos ofertou esse texto. Valeu, aí, meu velho!
Só uma obs.: O Jorge Nahas, citado acima, tem alguma ligação com o Naji Nahas?
Para ver o perfil dos outros candidatos, clique aqui e vá ao site do TSE.
E a liberdade de imprensa?
Primeira parte do vídeo "Liberdade- essa palavra", feito por um estudante de comunicação da UFMG sobre a falta de liberdade de imprensa no governo Aécio Neves. O vídeo mostra como o candidato tucano faz para dominar a opinião pública. São entrevistadas pessoas que sofreram com a repressão dos canais de televisão pró-Aécio. Veja as outras partes do vídeo e a patética resposta do governo de Minas sobre o filme no Youtube.
Outro filme que fala sobre a manipulação da imprensa em Minas Gerais praticada pelo governador Aécio Neves. O documentário, feito pela Current TV e exibido nos EUA e Inglaterra, mostra o envolvimento do governador com a Rede Globo e com o Jornal Estado de Minas.
Última Hora
Notícia fresquinha:
Hoje, às 19 horas, debate com os candidatos à Prefeitura de BH.
Local: PUC Minas - Rua Dom José Gaspar, 500 - Coração Eucarístico.
Cavalos no Páreo (parte 2)
Ibope BH: Jô Moraes cresce e consolida liderança
A candidata Jô Moraes, do PCdoB, mantém liderança folgada em pesquisa de intenção de voto divulgada pelo Ibope nesta sexta-feira (15). Pela pesquisa, a comunista tem 18% das intenções de voto. Ela é seguida por Leonardo Quintão (PMDB), preferido por 10% do eleitorado e em empate técnico com Márcio Lacerda (PSB), candidato do governador Aécio Neves (PSDB) e do prefeito Fernando Pimentel (PT) e preferido por 9% dos entrevistados.
Em seguida, a pesquisa aponta a candidata Vanessa Portugal (PSTU), com 5% das intenções de voto; Sérgio Miranda (PDT), com 3%; Gustavao Valadares (DEM), com 2%; e Pedro Paulo (PCO) e André Antônio Alves (PtdoB), com 1% cada. O candidato Jorge Periquito (PRTB) não foi citado por nenhum dos entrevistados. Os votos brancos e nulos somaram 15% dos pesquisados e outros 37% não responderam ou não sabem em quem votarão.
Em relação ao levantamento anterior, divulgado em 19 de julho, a pesquisa Ibope atual mostra que Jô Moraes cresceu 1 ponto percentual: passou de 17% para 18%. Quintão oscilou negativamente 4 pontos, passando de 14% para 10%. Já o candidato do PSB, Márcio Lacerda, subiu de 8 para 9% das intenções de voto.
Nada a comentar. Apenas para constar a notícia. Ah, não, mentira. Tenho que comentar uma coisinha.
Um dia desses, voltando para casa e passando de ônibus pela Praça Sete (Hipercentro de BH), estava acontecendo uma campanha pró-Sérgio Miranda, candidato à prefeitura de BH pelo PDT, coligado com o PCB (alguém me explica por que ele saiu do PCdoB?). No meio do Pirulito da Praça, estavam lá pessoas tremulando a bandeira do... Se você disse Márcio Lacerda, JACKPOT! Oportunismo é mesmo o marketing da hora...
Rapaiz, hoje começou o HEG - Hilário Eleitoral Gratuito. Minha diversão bianual começou!
Refendo ratificou a permanência do Evo Morales na Bolívia

O presidente boliviano Evo Morales obteve a maior votação em um referendo da história do país. Com 99,9% dos votos apurados, o presidente atingiu o índice de 67,41% de votos ratificando a sua permanência na presidência. A intenção do referendo foi de acabar com a crise em que partidários do presidente e oposição travavam sobre a questão da separação de algumas regiões da Bolívia, como a mais rica do país, Santa Cruz, e sobre a nova Constituição. O referendo também perguntou sobre a permanência de oito prefeitos. Morales saiu fortalecido ao fim da pesquisa, visto que ampliou a sua influência de dois para quatro estados na Bolívia, e a oposição, que tinha sete estados, ficou com cinco.
O resultado do referendo vai fortalecer uma nova tendência política na Bolívia. Um governo voltado para solucionar os problemas raciais e as desigualdades sociais, em detrimento a governos elitistas anteriores, que se preocupavam mais com a economia do país e menos com a população carente. O país que possui uma população com maioria esmagadora de indígenas e que sempre foi governado por uma minoria branca, agora vai ter a chance de compensar essa injustiça histórica.
a vitória da esquerda no paraguai.

Fernando Lugo Méndez assumiu presidência do Paraguai nesta sexta-feira (15), para um mandato de cinco anos, trajando um traje simples e com um discurso direto: "Hoje começa a história de um Paraguai em que as autoridades serão implacáveis com os ladrões do povo". Com a posse, o Paraguai passa a integrar a maioria política progressista que se fortalece na América Latina. (Portal Vermelho)
Seguindo a nova tendência latino-americana, o Paraguai elegeu um candidato de esquerda para a presidência da República. Utilizando um discurso semelhante ao do Hugo Chavez e do Evo Morales, o novo presidente vai lutar contra os abusos do neoliberalismo e de uma política histórica exclusivamente elitista. Ele também vai defender seus recursos naturais da ganância dos países ricos, como acontece na partilha da energia elétrica da Usina De Itaipu e no domínio dos brasiguaios nas terras paraguaias. O presidente e bispo católico defende também a integração latino americana.
Os desafios a serem enfrentados pelo bispo serão a governabilidade, visto que o parlamento é composto por maioria do partido mais conservador, o Colorado, a pressão exercida pelo próprio partido, a possibilidade de uma grande greve planejada pelo MST local, e uma herança de crescimento econômico sem distribuição de renda. O grande trunfo do presidente é possuir a confiança de 93% da população, de acordo com o jornal ABC Color.
EUA x RúSSIA
Desde a queda do Muro de Berlim, a mídia capitalista quis nos mostrar que um novo mundo viria, um mundo sem guerras, não mais polarizado entre duas potencias mundiais. Como nos filmes de Hollywood, nos foi informado que o final feliz estava próximo, que, até mesmo o bandido, a União Soviética, tinha passado para o lado do mocinho, os EUA. A partir daquele simbólico acontecimento, os bandidos (agora ex-comunistas) iriam se unir com os grandes heróis capitalistas em busca de um mundo melhor, o mundo da liberdade. Não haveria mais espaço para ditadores e comedores de criancinhas.
Algumas décadas depois, nada ficou muito diferente do que os mais realistas previam. Apesar de o mundo não está mais polarizado entre as duas gananciosas potencias no campo econômico, continuam mantendo a hegemonia militarmente e politicamente. A tão falada guerra nas estrelas está cada vez mais se tornando realidade. O mais recente capítulo dessa novela está ocorrendo na Polônia. Os EUA assinaram, no dia 14, um acordo visando a instalação de um escudo antimísseis em território polonês. Um acordo semelhante foi firmado na República Tcheca. Os EUA afirmam que querem defender seus aliados do grande Satã Irã. Será que o humilde Irã tem forças para lutar contra uma União Europeia inteira? A Rússia não está nada contente com tais acontecimentos. Afirmaram que vão tomar medidas militares quando o escudo for instalado.
Atualmente, no Cáucaso, uma região estratégica russa, está ocorrendo um grande conflito. Os russos estão em guerra contra a Geórgia, grande aliada americana. A disputa começou no dia 14, quando a Geórgia realizou uma ofensiva com o intuito de retomar a região da Ossétia do Sul, que havia declarado sua independência no início dos anos 90. Os russos não aceitaram a violação de um território aliado, e, em pouco tempo, invadiram a região e tomaram algumas cidades da Geórgia. Logicamente, os americanos declararam seu descontentamento em relação à atitude russa e recorreram à ONU. Como os russos possuem o direito de veto no Conselho de Segurança da entidade, nenhuma solução foi encontrada. Tal guerra já matou mais de 2000 pessoas e deixou milhares de refugiados.
A REVOLUÇÃO NÃO SERÁ TELEVISIONADA.

"O documentário "The revolution will not be televised" (A revolução não será televisionada), filmado e dirigido pelos irlandeses Kim Bartley e Donnacha O'Briain, apresenta os acontecimentos do golpe contra o governo do presidente Hugo Chávez, em abril de 2002, na Venezuela. Os dois cineastas estavam na Venezuela realizando, desde setembro de 2001, um documentário sobre o presidente Hugo Chavez e o governo bolivariano quando, surpreendidos pelos momentos de preparação e desencadeamento do golpe, puderam registrar, inclusive no interior do Palácio Miraflores, seus instantes decisivos, respondido e esmagado pela espetacular reação do povo." (Legenda do Google Vídeos).
Não devemos tomar o documentário como uma verdade absoluta. Contudo, devemos admitir o quanto recebemos as notícias de forma deturpada. A mídia neoliberal nos passa a imagem de um Chavez louco, sem programa de governo, ditador e repressor. O documentário relativiza a imagem que recebemos do presidente. Não acho que devemos transforma-lo num mártir. Não quero de maneira alguma fazer apologia ao seu governo, porém, devemos perceber que ele está incomodando, e muito, os países do eixo do norte. Não acredito que os neoliberais o vejam realmente como um louco, e sim, como uma uma grande ameaça.
Veja o vídeo completo neste link.
Ou assista parte do documentário abaixo:
Jogo da Eleição
Passando pelo blog Mercado Web Minas, eis que encontro um joguinho para, digamos, ajudar o eleitor a escolher seu candidato nas eleições municipais de BH.
Com o propósito de ajudar o eleitor na escolha de seu candidato a prefeito de Belo Horizonte, o Portal Uai desenvolveu um jogo para comparar a opinião dos internautas sobre temas importantes para a cidade com a dos nove candidatos na disputa. Cada um deles teve que responder a um questionário de nove perguntas relativas a desafios enfrentados pela capital mineira e justificar suas respostas.
À medida em que o usuário responde às mesmas questões, o gráfico se altera. Aqueles candidatos que tiverem uma visão mais próxima à do jogador vão se destacando. Em cada uma das perguntas, pode-se verificar a posição de cada concorrente sobre o tema, posicionando o cursor no botão localizado abaixo da foto do candidato.
Ao final, no menu à direita, você tem a opção de aumentar o peso dos temas que considera mais relevantes para o destino da cidade. Dentre os temas, estão: finanças, política, saúde, educação, trânsito e transporte, cidade.
Clique na imagem ou aqui para jogar.
Para mim, deu a Vanessa Portugal. CREDO!
Propaganda eleitoral
Depois da imprensa, o vice-rei de Minas Geraes terá comprado a... Fundação Getúlio Vargas???
(fonte)
O relatório da Fundação Getúlio Vargas sobre "A Nova Classe Média" divulgado anteontem (5) causou polêmica na campanha eleitoral pela Prefeitura de Belo Horizonte. A parceria entre o governador Aécio Neves (PSDB) e o prefeito Fernando Pimentel (PT), o mote principal da campanha de Marcio Lacerda (PSB), apoiado pelo tucano e o petista, é citada no documento.
A campanha de Lacerda, na noite de anteontem, já divulgava o relatório por e-mail enaltecendo o "efeito Aécio com Pimentel" no crescimento da classe média na região metropolitana de Belo Horizonte, conforme dito no relatório.
Afirma o relatório da FGV: "Quais das metrópoles brasileiras tiveram maior redução de miséria nos últimos seis anos? A resposta seria BH (-40,8%), Rio (-30,7%), seguido de perto por Salvador (-29,8%)".
Segue o texto: "Como não se trata de municípios ou Estados, mas das metrópoles, a liderança de BH é o que se pode chamar de efeito Aécio com Pimentel. Os movimentos de melhora das séries de indicadores sociais da Grande Belo Horizonte estão relativamente dispersos ao longo do período 2002 a 2008, enquanto o das demais metrópoles concentram-se em torno do período abril a junho de 2004".
A argumentação da FGV, instituição privada de ensino e pesquisa em ciências econômicas e sociais, não bastou para os rivais de Lacerda.
A candidata do PC do B, a deputada federal Jô Moraes, disse que há no período importante melhoria da pauta de exportação, especialmente do minério, além de ampla expansão do setor automotivo, setores fortes na região. Os investimentos em infra-estrutura feitos pelo governo Lula também são "muito importantes. É um conjunto de fatores, mas sobretudo um novo clima que se criou a partir da eleição do Lula. Diria que, quando as coisas dão certo, tem muito pai. Mas é bom partilhar os êxitos e os acertos", disse ela.
"Eu diria que é um estranho inusitado nos eficientes relatórios da FGV esse acréscimo propagandístico."
Prefiro não comentar.
O Ensino do Medo
Algo me incomoda profundamente, confesso-lhes. O papel do educador na escola fundamental, média ou no magistério. Tão belo é o significado do termo pedagogia, que advém do grego. É a reunião das expressões “paidós” (criança) e “agogé”(condução). Ou seja, o educador é aquele que pega pela mão e conduz. “Educar é construir, é libertar o homem do determinismo, passando a reconhecer o papel da História e onde a questão da identidade cultural, tanto em sua dimensão individual, como em relação à classe dos educandos, é essencial à prática pedagógica proposta. Sem respeitar essa identidade, sem autonomia, sem levar em conta as experiências vividas pelos educandos antes de chegar à escola, o processo será inoperante, somente meras palavras despidas de significação real. A educação é ideológica, mas dialogante, pois só assim pode se estabelecer a verdadeira comunicação da aprendizagem entre seres constituídos de almas, desejos e sentimentos”. Certa vez disse o mestre Paulo Freire, que, penso eu, um dos poucos que realmente poderia ser chamado de mestre. Não pelo seu grau de estudo, mas pela sua inabalável capacidade de expressão e amorosidade com o próximo que não era mais um número.
Ora, o que vejo no ensino do direito nada passa de um excesso de rigor que só leva a um profundo desgosto e frustração no processo de aprendizado, que se torna maçante ou, às vezes, insuportável, onde o professor exige do aluno uma dedicação extraordinária e um desgaste desnecessário, e o resultado final nunca é mais acúmulo de informação, mas sim desespero. Somos aprisionados, quando na verdade o processo de aprendizado deveria ser libertador. Somos educados a aprender que não temos nada para oferecer para a escola, essa última, que, portanto se dedica ao “ensino do medo”. Estamos na era do medo, e a Universidade se reduz à uma gaiola e que nos propõe que viremos galinhas acostumadas com os limites do galinheiro, quando na verdade poderíamos ser águias com os limites dos céus e do horizonte. O Ser - humano no ensino do direito é um objeto dentro de uma normatividade simplesmente, e assim seguem os estudantes da lei sem estudar ou saber para que mesmo ela serve. Estudam periódicos normativos que a cada ano são publicados aos montes nos códigos jurídicos. Sabem muito, mas não sabem para que serve o muito. E se esse muito é bom. A educação universitária monologa a velha ladainha se sua própria liturgia e nos deixa bem claro que ideologia é um negro véu que a juventude nos impõe, nada que o tempo não cure. Os chamados mestres estufam o peito bem alto na competição de títulos acadêmicos e quantum de alunos reprovados. Me parece que em termo desses, velhos valem 3 créditos e gestantes 4. No ensino do medo, a Universidade com atestado de qualidade implícito é aquela que reprova internamente para aprovar externamente. A lógica se dá da seguinte forma: Reprovando internamente se capta recursos, captando recursos, capta-se também alunos para que possam se exaurir pela Universidade, e não por eles. Pois o maior interessado que esses sejam aprovados externamente, seja no exame de ordem ou em outro qualquer é a própria Universidade, pois números de aprovações lhe rendem títulos de qualidade e dinheiro. A qualidade do ensino jurídico se reduz a índices estatísticos da OAB. O resultado é que no início do segundo milênio, a injustiça é fonte do direito que a perpetua e além disso é passivamente vista de longe nas academias. A distância entre o direito e a justiça na prática é tão feito de milhas e mais milhas como a distância entre alunos e professores. Educar é coisa do passado, o mercado oferece professores aos milhares, mas os educadores estão tolhidos do seu exercício em becos escuros ou marginalizados pela “subversão”, conceito criado para impedir o pleno processo de aprendizado. O educando é ensinado desde logo a nada construir e a nada oferecer a sua cultura. O conhecimento advém de um processo de doação caridosa mas jamais de um processo de troca. O ensino universitário é mãe de pequenos tiranos em seus palcos de madeira e com uma lista de chamada debaixo do braço. E o ensino jurídico, especificamente, nos ensina o nosso lugar, que é diariamente sentado numa carteira desconfortável, em salas escuras e quentes, com o medo na frente e o desprezo atrás, e o mais importante, calados! Esquecemos o passado ao invés de escutá-lo de modo crítico, padecemos da realidade ao invés de vivê-la no presente, e nem nos damos o trabalho de imaginar o futuro, pois os nossos sonhos se reduziram a alforria do ensino universitário, supra sumo em aprisionar almas através de mecanismos sutis.
Mais do que a encomenda
Num momento no qual o Márcio Lacerda, candidato à prefeitura de BH pelo PSB, precisa se expor para se tornar público, eis que seus menestréis Aécio e Pimentel falam mais do que ele. Leia só:
Aécio e Pimentel vão a favela de Belo Horizonte fazer campanha por Lacerda
No ato no Aglomerado da Serra, onde a segurança da Polícia Militar estava reforçada, Aécio e Pimentel foram os últimos a discursar, em vez do candidato, e falaram mais do que Lacerda. O tucano e o petista continuam sendo as estrelas principais da campanha de Lacerda pela prefeitura de BH.
A determinação era para que todos os discursos fossem breves, e Lacerda seguiu à risca: falou por cerca de 15 segundos. Aécio discursou por pouco mais de três minutos.
Quinze segundos? Será que o Lacerda está se preparando para aquele quadro do Fantástico? Talvez ele não estoure, mas o Aécio... Ah, esse fala demais, Aderbal... Como diz o ditado, quem fala demais dá bom-dia a cavalo.
Deuses
Humildemente curvo-me ao desconhecido império de mim mesma. Eu, que sou deus. Eu, que me movimento ao redor de Deus. Um Deus que anda queimado, que anda desmatado... um deus que anda esperando a vida inteira numa espera antiga, reservada, toda entregue somente ao ato de esperar. Deus, que anda sentindo fome abandonado nas esquinas de um 3° mundo que, na verdade, não existe, pois o mundo é um só. Deus, que anda enchendo os bolsos de falsos deuses. Deus, que vem morrendo perante uns olhos prestes a se fechar depois que a esperança se esvai... Deus, que ainda vive em outros olhos que ainda aguardam. Um deus que anda explodindo bombas em outros deuses por acreditar serem outrem quando, na verdade, são apenas o outro de nós mesmos. Nós, deuses mortais que não podem prever o futuro, mas que podem construí-lo. Deuses, que vêm se esquecendo de que, humildemente, devem ser Deus.
Salva-vidas de chumbo, artigo de Eduardo Galeano
MONTEVIDEO, 16 de agosto de 2006. Texto enviado por Eduardo Galeano à Via Campesina Brasil em homenagem às mulheres camponesas.
Pelo que diz a voz de comando, nossos países devem acreditar na liberdade do comércio (embora ela não exista), honrar os compromissos (embora eles sejam desonrosos), atrair investimentos (embora eles sejam indignos) e ingressar no cenário internacional (embora pela porta dos fundos).
Ingressar no cenário internacional: o cenário internacional é o mercado. O mercado mundial, onde compram-se países. Nada de novo. A América Latina nasceu para obedecê-lo, quando o mercado mundial nem era chamado assim, e de um jeito ou de outro continuamos atados ao dever de obediência.
Esta triste rotina dos séculos começou com o ouro e a prata, e continuou com o açúcar, o tabaco, o guano, o salitre, o cobre, o estanho, a borracha, o cacau, a banana, o café, o petróleo... O que esses esplendores nos deixaram? Nos deixaram sem herança nem bonança. Jardins transformados em desertos, campos abandonados, montanhas esburacadas, águas apodrecidas, longas caravanas de infelizes condenados à morte antecipada, palácios vazios onde perambulam fantasmas...
Agora, chegou a vez da soja transgênica e da celulose. E outra vez repete-se a história das glórias fugazes, que ao som de seus clarins nos anunciam longas tristezas.
***
Será que o passado ficou mudo?
Nós nos negamos a escutar as vozes que nos alertam: os sonhos do mercado mundial são os pesadelos dos países que se submetem aos seus caprichos. Continuamos aplaudindo o seqüestro dos bens naturais que Deus, ou o Diabo, nos deu, e assim trabalhamos pela nossa própria perdição e contribuímos para o extermínio da pouca natureza que nos resta neste mundo.
Argentina, Brasil e outros países latino-americanos estão vivendo a febre da soja transgênica. Preços tentadores, rendimentos multiplicados. A Argentina é, e já faz tempo, o segundo maior produtor mundial de transgênicos, depois dos Estados Unidos. No Brasil, o governo de Lula executou uma dessas piruetas que pouco favor fazem à democracia, e disse sim à soja transgênica, embora seu partido tenha dito não durante toda a campanha eleitoral.
Isso é pão hoje e fome amanhã, como denunciam alguns sindicatos rurais e organizações ecologistas. Mas já sabemos que os peões ignorantes se negam a entender as vantagens do pasto de plástico e da vaca a motor, e que os ecologistas são uns estraga-prazeres que não dizem coisa-com-coisa.
***
Os advogados dos transgênicos afirmam que não está provado que prejudiquem a saúde humana. Em todo caso, também não está provado que não a prejudiquem. E já que são assim tão inofensivos, por que os fabricantes de soja transgênica se negam a esclarecer, nas embalagens, que vendem o que vendem? A etiqueta de soja transgênica não seria sua melhor publicidade?
Acontece que existem evidências de que estas invenções do Doutor Frankenstein fazem mal à saúde do solo e reduzem a soberania nacional. Exportamos soja ou exportamos solo? Estamos ou não estamos presos nas gaiolas da Monsanto e de outras grandes empresas de cujas sementes, herbicidas e pesticidas passamos a depender?
Terras que produziam de tudo para o mercado local agora se consagram a um único produto para a demanda estrangeira. Nós nos desenvolvemos para fora e nos esquecemos de dentro. O mono-cultivo é uma prisão, sempre foi, e agora, com os transgênicos, é muito mais. A diversidade, por sua vez, liberta. A independência se reduz ao hino e à bandeira, se a soberania alimentar não é assentada. A autodeterminação começa pela boca. Só a diversidade produtiva pode nos defender das súbitas despencadas de preços que são costume, mortífero costume, do mercado mundial.
As imensas extensões destinadas à soja transgênica estão arrasando os bosques nativos e expulsando os camponeses pobres. Poucos braços ocupam essas explorações altamente mecanizadas, que ao mesmo tempo exterminam as plantações pequenas e as hortas familiares com os venenos que fumigam. Multiplica-se o êxodo rural às grandes cidades, onde se supõe que os expulsos vão consumir, se tiverem sorte, o que antes produziam. É a agrária reforma: a reforma agrária pelo avesso.
***
A celulose também está na moda, em vários países.
Agora, o Uruguai está querendo se transformar num centro mundial de produção de celulose para abastecer de matéria prima barata as longínquas fábricas de papel.
Trata-se de monocultivos para a exportação, na mais pura tradição colonial: imensas plantações artificiais que dizem ser bosques e se convertem em celulose num processo industrial que arroja detritos químicos nos rios e torna o ar irrespirável.
No Uruguai, começaram por duas fábricas enormes, uma das quais já está a meio construir. Depois surgiu outro projeto, e já se fala de outro, e outro mais, enquanto mais e mais hectares estão sendo destinados à fabricação de eucaliptos em série. As grandes empresas internacionais nos descobriram no mapa do mundo, e caíram de súbito amor por este Uruguai onde não há tecnologia capaz de controlá-las, o estado outorga subsídios e evita impostos, os salários são raquíticos e as árvores brotam num piscar de olhos.
Tudo indica que nosso país, pequenino, não irá agüentar o asfixiante abraço desses grandalhões. Como costuma acontecer, as bênçãos da natureza se transformam em maldições da história. Nossos eucaliptos crescem dez vezes mais depressa que os da Finlândia, e isso se traduz assim: as plantações industriais serão dez vezes mais devastadoras. No ritmo de produção previsto, boa parte do território nacional está sendo espremida até a última gota de água. Os gigantes sedentos vão secar nosso solo e nosso subsolo.
Trágico paradoxo: este país foi o único lugar do mundo em que a propriedade da água foi submetida a plebiscito popular. Por esmagadora maioria, os uruguaios decidiram, em 2004, que a água seria propriedade pública. Não haverá maneira de evitar o seqüestro dessa vontade popular?
***
A celulose, é preciso reconhecer, transformou-se em algo assim como uma causa patriótica, e a defesa da natureza não desperta entusiasmo. Pior: em nosso país, algumas palavras que não eram palavrões, como ecologista e ambientalista, estão se transformando em insultos que crucificam os inimigos do progresso e os sabotadores do trabalho.
Celebra-se a desgraça como se fosse boa notícia. Mais vale morrer de contaminação do que morrer de fome: muitos desempregados acreditam que não existe outro remédio além de escolher entre duas calamidades, e os mercadores de ilusões desembarcam oferecendo milhares e milhares de empregos. Acontece que uma coisa é a publicidade, e outra é a realidade. O MST, movimento dos camponeses sem terra, divulgou dados eloqüentes, e que não valem apenas para o Brasil: a celulose gera um emprego a cada 185 hectares, e a agricultura familiar cria cinco empregos a cada dez hectares.
As empresas prometem o melhor. Trabalho a rodo, investimentos milionários, controles rígidos, ar puro, água limpa, terra intacta. E eu me pergunto: já que é assim, por que não instalam essas maravilhas em Punta del Este, para melhorar a qualidade de vida e estimular o turismo em nosso balneário principal?
Tradução: Eric Nepomuceno, Rio de Janeiro
Distribuição IPS- Inter-press-service, Italia. Dia 16 de agosto de 2006.
Fonte: http://www.aspta.org.br/por-um-brasil-livre-de-transgenicos/artigos/salva-vidas-de-chumbo-artigo-de-eduardo-galeano/
Eleições sobre cadáveres
Relevantes meios de comunicação e políticos não duvidaram em qualificar o que aconteceu dia 30 de janeiro de 2005 no Iraque como “as primeiras eleições democráticas” da sua história. A afirmação é um alarde de cinismo ou de cegueira porque ninguém, que acredite numa verdadeira democracia, pode aceitar, como tal, a farsa eleitoral organizada pelos EUA. Não o pode chamar, sem deformar a tal ponto os fundamentos da democracia que, então, pode chamar-se isso a qualquer arremedo de consulta popular, onde o que importa não é o país, mas o poder.
O Iraque, há que recordá-lo, é um país ocupado por 200 mil soldados estrangeiros e em guerra. Um Estado soberano invadido em 2003, em violação das leis mais fundamentais do Direito Internacional e onde, diariamente, são assassinados, torturados e vilipendiados centenas de cidadãos, sem que haja lei ou autoridade que zele pelos seus direitos. Um país que vê destruídas cidades, povoações e bairros pelas forças invasoras, no meio do silêncio cúmplice de tantos governos, mais preocupados em agradar à potência ocupante que em deter a destruição do Iraque e os crimes que ali se cometem diariamente.
As eleições, além disso, estavam infestadas de arbitrariedades que, não fossem os Estados Unidos o organizador – ou se o seu promotor tivesse sido um país adverso ao Ocidente – a desclassificação das mesmas teria sido generalizada. Realizaram-se, em primeiro lugar, em total ausência de liberdade, pois nenhuma pessoa honesta pode acreditar que um país agredido e ocupado pode exercer livremente o seu direito à autodeterminação. As eleições em Timor Leste realizaram-se em 2001 sob a supervisão da ONU, dois anos depois de o exército indonésio abandonar o país. Nunca ninguém pensou em realizar as eleições enquanto Timor permanecia debaixo da ocupação de tropas estrangeiras.
Em segundo lugar, não existia um recenseamento fiável, nem se tinham, minimamente, definido os votantes. Esta carência essencial permitirá aos EUA adulterar os níveis de participação e dirigir os votos para os seus candidatos protegidos, de forma que ganhe quem menos o odiar. Também não havia uma autoridade eleitoral, legítima e independente, que zelasse pela lisura do escrutínio, nem que garantisse as liberdades eleitorais mínimas, como exige o jogo democrático. Os partidos que se opõem à ocupação foram ilegalizados ou integraram-se na resistência. Desde a convocação das eleições, optaram por retirar-se 53 partidos dos 84 que se apresentaram inicialmente, pela precariedade das mesmas e ausência de garantias. A farsa era tão absurda que até podiam ter votado 150 mil israelenses de origem iraquiana.
Na conferência de Sharm el Sheij, no Egipto, a França apresentou uma proposta, não aceite, com três condições para superar o desastre no Iraque: a participação de todas as forças iraquianas, incluída a resistência em qualquer proposta de solução; passar o controlo do Iraque às Nações Unidas e fixar uma data de retirada das tropas estrangeiras. A recusa desta proposta revela a intenção de manter, sine die, a ocupação do Iraque, o que é o mesmo que dizer a de prolongar a guerra e a destruição e, naturalmente, a de manter o país dominado. Não se gastaram 300 mil milhões de dólares para devolver o Iraque aos iraquianos.
Dar por boas umas eleições realizadas em tais condições não só aumentará a confrontação no Iraque como implicará legitimar as guerras de agressão e validar os crimes internacionais. Deitaram por terra não só a Carta das Nações Unidas, como também o Tribunal Penal Internacional, pois carecerá de sentido defender uma ordem jurídica mundial e um tribunal internacional, quando basta uma farsa eleitoral para limpar os crimes mais abomináveis.
Os EUA, que inventaram a democracia das bananas no Caribe, tentam impor no Iraque uma democracia de cadáveres. Invade o país, coloca um governo títere, mata, encarcera e tortura os opositores e convoca eleições sem garantias, nas quais apenas participam os seus. Com o arremedo eleitoral, a ocupação e a guerra transformam-se em politicamente correctas e Bush poderá proclamar, sobre um país devastado, que os Estados Unidos cumpriram a sua missão civilizadora. O modelo não é novo. Na América Latina foi utilizado ao longo de décadas. E ainda se estão a contar os cadáveres.
Augusto Zamora R. é Professor de Direito Internacional Público e Relações Internacionais na Universidade Autónoma de Madrid. Tradução de José Paulo Gascão.
O original encontra-se em http://www.rebelion.org/noticia.php?id=10811 .
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/.






